sábado, 2 de maio de 2009

Augusto Boal, o criador do Teatro do Oprimido

Augusto Boal nasceu em 1931, no bairro da Penha, Rio de Janeiro. Desde criança escrevia, ensaiava e montava suas próprias peças nos encontros de família. Sua formação em Engenharia Química torna-se paralela à pesquisa, à criação de textos teatrais lidos e comentados por Nelson Rodrigues. Estuda na Columbia University com John Gasner e assiste às montagens do Actor’s Studio.

Em 1956, Boal volta ao Brasil a convite de Sábato Magaldi e Zé Renato para dirigir o Teatro de Arena de São Paulo. O grupo provoca uma revolução estética no teatro brasileiro nos anos 50 e 60. Através do Seminário de Dramaturgia, do Laboratório de Interpretação e das diversas montagens, o Teatro de Arena contribui vigorosamente para a criação de uma dramaturgia genuinamente brasileira.

A partir 1964, a Ditadura Militar inicia a perseguição a todos os indivíduos e grupos de artistas com preocupações sociais e políticas. Em 1968, vem o AI-5 que aperta ainda mais o cerco. Em 1970, O Núcleo Dois do Arena inicia os primeiros experimentos do Teatro-Jornal, o embrião do Teatro do Oprimido.

Em fevereiro de 1971, Augusto Boal é preso, torturado e exilado. Passando a residir na Argentina, de 1971-1976, dirige o grupo “El Machete” de Buenos Aires e monta, de sua autoria, “O Grande Acordo Internacional do Tio Patinhas”, “Torquemada” (sobre a tortura no Brasil) e “Revolução na América do Sul”, iniciando intensas viagens por toda a América Latina, onde começa a desenvolver novas técnicas do “Teatro do Oprimido”: Teatro-Imagem, Teatro-Invisível e Teatro-Fórum.

Em 1976 muda-se para Lisboa, onde dirige o grupo “A Barraca”. Dois anos depois é convidado
para lecionar na Université de la Sorbonne-Nouvelle. Em Paris, cria o Centre du Théatre de l´Opprimé-Augusto Boal, em 1979.

Trabalha em muitos países europeus e desenvolve as técnicas introspectivas do Teatro do Oprimido: o Arco-Íris do Desejo. Antes de regressar definitivamente ao Brasil, monta no Rio de Janeiro “O Corsário do Rei” (de sua autoria, letras de Chico Buarque, música de Edu Lobo) e “Fedra” de Racine, com Fernanda Montenegro.

A convite do então Secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro, professor Darcy Ribeiro, Boal volta ao Brasil em 1986 para dirigir a FÁBRICA DE TEATRO POPULAR. O objetivo era tornar a linguagem teatral acessível a todos, como estímulo ao diálogo e à transformação da realidade social.

Ainda em 1986, junto com artistas populares, cria o Centro de Teatro do Oprimido – CTO-Rio, para difundir o Teatro do Oprimido no Brasil.

No CTO-Rio, desenvolve projetos com ONG´s, sindicatos, universidades e prefeituras. Em 1992, candidata-se e é eleito vereador da cidade do Rio de Janeiro pelo PT (Partido dos Trabalhadores), para fazer Teatro-Fórum e, a partir da intervenção dos espectadores, criar projetos de lei: é o Teatro Legislativo.

Após transformar o espectador em ator com o Teatro do Oprimido, Boal transforma o eleitor em legislador. Utilizando o Teatro como Política, em Sessões Solenes Simbólicas, encaminha à Câmara de Vereadores 33 projetos de lei, dos quais 14 tornam-se leis municipais, entre 1993 a 1996.

A partir de 1996, fora da Câmara dos Vereadores, Boal e o CTO-Rio seguem na consolidação do Teatro Legislativo Em 1998, conseguem o apoio da Fundação Ford, para a criação de grupos comunitários de Teatro do Oprimido.

Boal também realizou diversas Sessões Solenes Simbólicas, de Teatro Legislativo, no exterior: no “Great London Council” - Londres, com a participação de escritores como: Lisa Jardine, Tarik Ali, Paul Heller e advogados dos Tribunais de Londres; em Bradford, na Câmara Legislativa da cidade, sobre questões relativas aos portadores da Síndrome de Down; na Sala da Comissão de Justiça do Rathaus (Prefeitura) de Munique, com apoio da Sociedade Paulo Freire.

Em 1999, transforma a ópera “Carmem” de Bizet em SAMBÓPERA, uma experiência inovadora que traduziu as músicas originais para ritmos genuinamente brasileiros. Carmem ficou em temporada no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Em julho de 2000, estreou em Paris. Em 2001, “La Traviata” é montada também como SAMBÓPERA e faz circuito no Rio de Janeiro.

Sua mais recente pesquisa é a Estética do Oprimido, programa de formação estética que integra experiências com o SOM, PALAVRA, IMAGEM e ÉTICA. A Estética do Oprimido tem por fundamento a crença de que somos todos melhores do que pensamos ser, e capazes de fazer mais do que aquilo que efetivamente realizamos: todo ser humano é expansivo.

Augusto Boal é autor de diversas obras literárias lançadas nos mais diversos idiomas, além de colecionar um arsenal extraordinário de prêmios e honrarias.

A principal criação de Augusto Boal, o Teatro do Oprimido, é hoje uma realidade mundial, sendo a metodologia teatral mais conhecida e praticada nos cinco continentes. Augusto Boal foi um artista em plena atividade.

2 de maio de 2009 - RIO DE JANEIRO - O dramaturgo e diretor teatro Augusto Boal morreu na madrugada deste sábado, aos 78 anos, de insuficiência respiratória, no Hospital Samaritano, no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. Boal sofria de leucemia e estava internado na unidade desde o último dia 28 de abril. O corpo do dramaturgo está sendo velado no cemitério do Caju, onde será cremado.


Gente do teatro, meus amigos, Augusto Boal foi um artista em plena atividade.

Acabamos de perder um grande mestre, Augusto Boal morreu há poucas horas. Um mestre insubstituível, um dos deuses do arquipélago do teatro, um dos mitos da nossa religião. Não vamos tomar a última taça de vinho, imortal Augusto Boal.
Aderbal Freire Filho

Tomo a liberdade de encaminhar o texto de mensagem de Cristina Aché.

Dia triste. O Boal faleceu ontem a noite. Tive a oportunidade de assisti-lo a alguns dias, aqui em Paris, lendo a mensagem anual da Unesco, que ele escreveu este ano para o dia do teatro. O final da mensagem diz assim:

"Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.
Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!"

A mensagem completa é belíssima e deve ser lida no site da Unesco.

Obrigada Boal por sua clareza.
Iluminemo-nos!

Cristina Aché


Amigos,

Acabei de receber a notícia da morte do Augusto Boal.
Estou chocada apesar de saber que já há muito ele lutava pela vida. Na verdade toda a sua vida foi uma grande e bela luta pela vida. Por uma vida melhor para todos, mais justa, inteligente e divertida.

No seu último discurso na festa do Dia Mundial do Teatro, 27 de março, que é o nosso dia nacional do Circo ele disse:

*"Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida. Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!"

*temos muito o que fazer e juntos somos fortes!
A questão dos animais continua prejudicando o Circo em todo o Brasil e o IBAMA ontem, dia 1 de maio "roubou" mais um elefante para o parque de Atibaia... vamos ter que jogar pesado e fazer valer a nossa voz.

Que todos compreendam que quando um órgão público pensa que pode atacar os circos dessa maneira estamos abrindo as portas para que amanhã eles proíbam espetáculos em nome da "segurança" do público, da "segurança dos artistas", proibam espetáculos com crianças ou outra maluquice qualquer.
Esse problema diz respeito a todos nós!

O IBAMA está desrespeitando o circo e trabalhando para enriquecer parques privados!

Espero que a reunião do Colegiado Setorial em Brasília consiga sensibilizar o Governo Federal para o massacre que estão fazendo com o circo.

Proponho que todo o colegiado faça uma visita ao Ministerio do Meio Ambiente. Seria muito bom se pudessemos apresentar uma lista com os animais"roubados" dos circos nos últimos tempos e o nome dos "beneficiados" que receberam de graça nossos animais!

Tem hora.....chega a dar vontade de desistir de tudo.... mas que o exemplo do Boal, perseguido pela ditadura militar por tantos anos e que nunca se cansou nem se abateu nos dê forças para enfrentar a ignorância e a ganância.

Alice Viveiros de Castro

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